mundo, por inteiro

01Aug10

Velho e Novo Mundo (por Alexandra Lucas Coelho, no P2 de sexta, dia 30 de Julho)

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Dei-me ao trabalho de o transcrever por inteiro porque estas palavras soaram-me a Apocalipse. E tamanho ‘acontecimento’, pela sua intensidade e carácter, deve ser recordado de quando em quando…

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‘A Europa está morta e eu sou europeia. Ou mais exactamente, do Velho Mundo. Ao fim de um dia na Cidade do México, a levitar como se me tivesse dissolvido na multidão, vi que sou do Velho Mundo. E ao longo de três semanas a viajar pelo México, do deserto do Chihuahua à selva de Chiapas, vi como sou do Velho Mundo.

O México dá vontade de chorar, um choro de séculos em que não percebemos porque choramos, se não seremos nós já eles. Nunca, em lugar algum, me pareceu que tudo coexiste, tempos e espaços, cimento e natureza, homens e animais, até aceitarmos que o nosso próprio corpo faz parte daquela amálgama acre, ligeiramente ácida, de pele suada com muito chile.

É brutal e prodigioso como algo que nunca compreenderemos, algo estranho à nossa origem.

No Museu de Antropologia da Cidade do México há um mapa das migrações humanas que trouxeram os primeiros habitantes do que é hoje o México. Vieram do frio mais remoto, do Ártico, e é isso que continuamos a ver nos olhos indígenas, séculos depois de todas as misturas.

Tenho a mesma sensação de opacidade em relação ao Extremo Oriente. O mais a oriente que estive, do ponto de vista europeu, foi a Índia, que sendo brutal e prodigiosa não foi estranha. Tal como a Ásia Central, o Norte de África ou o Médio Oriente não foram estranhos. O meu Velho Mundo é o que Alexandre alcançou. Da Índia, para oriente tendo a pensar que é intransponível, ou demasiado tarde.

E o Sul? A primeira vez que fui a Moçambique vi que era branca, porque fui olhada como branca. Era a História, e essa História também era minha. Mas no México vi que sou do Velho Mundo sem que alguém estivesse a olhar, e aquela História aparentemente não é minha.

Também não é o Sul.

Em ‘O Labirinto da Saudade’, Octávio Paz descreve os mexicanos como o mais solitário dos povos, perpetuamente incapaz de transpor e ser transposto. Por isso, e por tudo e por nada, existe a fiesta. É uma necessidade orgânica, a descarga.

Nenhum mexicano compreende Moctezuma, o soberano que morreu por se abrir a Cortés. O herói mexicano é Cuauhtémoc, o soberano que morreu por não se abrir a Cortés. Este Novo Mundo começa no extermínio, e isso há-de significar qualquer coisa. No tempo indígena significa que o extermínio histórico faz parte do presente.

Mas hoje, no México, há um outro prenúncio de extermínio: milhões de pessoas devoradas pelo capitalismo global, que continuam a montar o interior das nossas televisões por salários escravos, porque a alternativa é o desemprego; milhões de pessoas ameaçadas, raptadas, decapitadas pelo narcotráfico global que vende o que se cheira em Manhattan; milhões de pessoas a arriscar a vida por uma fronteira fechada, os mexicanos que os EUA não querem e os centro-americanos que os EUA e o México não querem; milhões de pessoas reféns do poder que se alimenta do dinheiro e da morte ser tão fácil. A vida custa e não vale nada.

O verdadeiro cenário negro é: não há Velho e Novo Mundo, o mundo será esse extermínio.’

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