fazer de cada momento uma vida; ou… sobre a consciência das coisas

23Aug10

um depoimento que tem a ver com tudo, que fala sobre tudo e que é essencial! (encontrado na revista UPorto de Set. 2005)

por Fernando Távora (1923-2005), a 21 de maio de 1980:

Eu sei, eu sei; sim, eu sei. Sei-o agora e já há muito tempo o sabia. Sim, sei, sei isso. Mas eu sei isso e também sei o contrário. E é tão difícil saber isso e saber o contrário. Aceitar isso e não desprezar o contrário.

Sim, eu sei; eu sei que a Terra terá cinco mil milhões de anos; eu sei que a Vida terá mil milhões de anos; eu sei que a “pequena” distância da Terra à Lua anda aproximadamente pelos 400.000 kilómetros.

Eu sei, sim eu sei; eu sei; eu sei que tenho apenas 56 anos de idade, 1,65m de alto e um passo de 70 centímetros. Sim, eu sei; eu sei; mas sei também que a praia ficará diferente se eu lhe roubar um grão de areia; eu sei que o mar não será o mesmo se eu lhe chorar uma lágrima; eu sei que o Universo se altera quando respiro ou mesmo quando penso. Sei, eu sei, eu sei que venho de longe e vou para longe; sei que não estou apenas aqui mas em muito lado, sei que não vivo “apenas” o tempo que vivo. Sei que o infinitamente grande é tão infinito como o infinitamente pequeno.

E sei e sei mais e muito mais.

Sei que não sou excepção. Sei que sou como todos os homens; os que nasceram e morreram; os que hão-de nascer para morrer. Eu sei que entre mim e os outros há uma eterna e indissolúvel união. E que os outros precisam de mim, tanto quanto eu deles necessito. Eu sei que é este saber-mo-nos infinitamente grandes por sermos infinitamente pequenos que constitui a paixão da Vida. Eu sei, sim eu sei.

E é sobre esta Vida de paixão que tem sido a minha que vou falar. Com ironia, com tristeza, por vezes com rancor, mas sempre, sempre com paixão. Há anos pensei um pensamento para gravar numa porta que ofereci, simbolicamente, para a casa de uns amigos. Esse pensamento pensava simplesmente: faz de cada momento uma Vida. Ofereci a porta mas não gravei o pensamento. Gravei-o na memória e procuro praticá-lo no quotidiano. E é essa paixão pela Vida que quero apaixonadamente transmitir. Porque não vive quem não mergulha permanente e apaixonadamente na paixão da Vida.

Eu sei, sim eu sei. Eu sei.

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